• Alfredo Lhullier

Procrastinar e coçar, é só começar...

Adiar, marcar novamente e adiar... Mil coisas pra fazer, ou nada, só passar um tempinho relaxando... marcar novamente para mais tarde, e adiar... posso fazer depois, vou pensar melhor, repensar, vai ficar ainda melhor... e chega na hora, fazer outra coisa.

Está certo, a seqüência acima já identifica uma situação mais grave um pouquinho. Provavelmente uma série infindável de procrastinações, que só se encerrará com a iminência do prazo, ou, o pior, a perda deste. No geral é comum que tenhamos alguns episódios de procrastinação, nada fora do normal. Eventualmente deixamos alguma coisa pra fazer depois e a fazemos, mais ou menos depois do prazo inicial... procrastinação, força do hábito? Disciplina? Errado! E certo... Um mau hábito, certamente, mas que não se inicia como tal, nem se estabelece simplesmente por hábito. A procrastinação, que pode chegar a ser sintoma digno de classificação nos indexadores de saúde mental, é na realidade um adiamento de emoções e sensações. A evitação de algo que julgamos, será desagradável, intolerável, ou difícil. Ou pelo menos a impossibilidade de momentos de satisfação.

- Mas quer prazer maior que a tarefa concluída? Sim, mas quem procrastina não pensa em não fazer a tarefa, o prazer virá a seu tempo, quando a “resistência” acabar... só que ela não acaba, para os casos mais graves; e acaba a um certo custo, para os menos graves.

A evitação dos sentimentos dolorosos provenientes da renúncia à lassidão e à preguiça, daquele momento “roubado”, acaba por vencer e esta atitude começa a se impor cada vez mais. Como funciona nosso cérebro, privilegiando as ações que levam ao prazer, o “prêmio” da satisfação momentânea, e o alívio de um certo grau de ansiedade (quanto maior a ansiedade, mais difícil) levam à repetição, e a ação natural começa a ser “deixar pra depois”.

Tem ainda o caso das datas que são auto-impostas como prazo. As instituídas pela sociedade: Natal, Ano Novo, Páscoa, Carnaval... e as criadas por nós mesmos: no fim de semana, amanhã, hoje à tarde... servem como desculpas passageiras, que ao serem burladas alimentarão ainda mais a sensação ruim de fracasso, colaborando negativamente para os adiamentos. – No fim de semana vou ter mais tempo, daí resolvo, escrevo, leio, estudo ou telefono e marco. Mas chega a data e a vontade não vem, daí fica mais provável um novo adiamento.

A essa altura, o que fazer?

Ah, deixa pra daqui a algumas linhas... he, he, brincadeira!

Todo procrastinador sabe o que fazer, os amadores talvez não. E o mais irônico é que a solução vai parecer a mais simples de todas, o óbvio. Aperta aquele botão ali, sim, o da flechinha, o play, cara! Vai e faz! Elimina esta parte do cérebro que te põe em dúvida, ignora todo questionamento em contrário, não pensa, levanta-te e anda, Lázaro!

E isso funciona?

O mais engraçado de tudo é que funciona, vai funcionar, e justamente por ser simples e direto. Não precisa ler um livro, assistir uma série de palestras, fazer um curso online. Ignora e vai. Como sair da cama de manhã cedo, quando a gente está com preguiça: se começar a pensar como será ficar deitado, ferrou. Ignora, levanta e vai fazendo no automático. Mesmo que o corpo, aos “gritos”, proteste. Levanta-te e anda!

Isso resolve tudo? Sim, já que se a gente não sabe o que fazer, sabe que tem que procurar saber e isso já é uma tarefa. Mas pode não durar pra sempre... ai, ai, ai... e aí?

Temos de volta o “deixa pra lá”, o “vai levando”... e aí?

Bom, o que fazer quando a gente esta aprendendo a andar de bicicleta e cai?

Lá do chão, surpreso e humilhado, o ciclista aprendiz olha o locutor e pergunta: - E agora, o que que eu faço?

Adivinharam a resposta?

- Levanta e segue andando, mas antes sacode a poeira e toma um arzinho. Só um!

Isso é tudo? Aos poucos vamos nos habituando a algo diferente: fazer as coisas quando a gente quer mesmo, quando planejou. Isso é muito bom! O prazer e a gratificação resultantes fazem de antídoto contra o mau-hábito da procrastinação, e começamos a nos sentir mais capazes, mais fortes e vencedores, ao invés de perdedores.

Caiu de novo? O que fazer? Já sabe! É normal, esperável, alguém que está aprendendo a andar de bicicleta, cair? Sim, esperável, mas não desejável, assim vamos tratar de evitar que aconteça, mas se acontecer é só se por de pé novamente, sacudir a poeira, e andar.

Não precisa fazer terapia por mais alguns anos (vontade de rir, valeu a nova tentativa!).

Começamos assim uma nova atitude, a de não evitar as situações que são importantes para nós, seduzidos pela paz, prazer e ilusão da postergação. Embora, muitas vezes, algumas coisas realmente não vamos querer fazer porque não valem a pena. Bom, aí... é melhor não postergar e decidir logo o que vale a pena.

Tem mais um elemento importante a nosso favor: a morte. Opa, pegou pesado! Mas é assim mesmo. Vamos morrer? Claro, um dia vamos. Ponto indiscutível... mas até lá...

Não, lamentavelmente, não é assim. Morreu ontem, anteontem e vai morrer daqui a pouco. Cada momento que passa é uma pequena morte em nossas vidas, dezenas, centenas de milhares delas, até que chegue a grandona. Morremos todo tempo, e não tem volta.

Portanto, cala a boca dessa “matraca mental”, aperta o play, o “fuck”, o que for, levanta-te e vai fazer... foi assim que me decidi a escrever este texto!



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